Em Português
NÃO ME CHAMES ESTRANGEIRO
Rafael Amor
Tradução: Maria José Limeira
Não me chames estrangeiro por eu ter nascido longe,
ou porque tenha outro nome a terra de onde venho.
Não me chames estrangeiro por ter sido outro o berço
ou porque balançou minha infância outro idioma dos contos.
Não me chames estrangeiro se no amor de uma mãe
tivemos a mesma luz na canção e no beijo,
com que nos sonham por igual as mães contra seu peito.
Não me chames estrangeiro, nem penses de onde venho,
melhor seria saber para onde vamos, e a onde nos leva o tempo.
Não me chames estrangeiro, porque teu pão e teu fogo
acalmam minha fome e meu frio, e teu telhado me abriga.
Não me chames estrangeiro, teu trigo é como meu trigo,
tua mão é como a minha, teu fogo é como meu fogo,
e a fome não avisa nunca, vive mudando de dono.
E me chamas estrangeiro porque mudei de caminho,
porque nasci em outro lugar, porque conheço outros mares,
e zarpei um dia de outro porto, mas os lenços são sempre iguais
no adeus, e as pupilas apagadas dos que deixamos
para trás. Os amigos que nos chamam e são iguais os beijos
e o amor de quem sonha com o dia do regresso.
Não me chames estrangeiro, trazemos o mesmo grito,
o mesmo cansaço antigo que vem arrastando o homem
desde o fundo dos tempos quando não existiam fronteiras
antes que eles chegassem, os que dividem e matam,
os que roubam, os que mentem, os que vendem nossos sonhos.
Os que inventaram um dia, esta palavra, estrangeiro.
Não me chames estrangeiro, que é uma palavra triste,
uma palavra gelada, que sabe a esquecimento e desterro.
Não me chames estrangeiro, olha teu filho e o meu,
como andam de mãos dadas até o fim do caminho.
Não me chames estrangeiro, eles não querem saber de idiomas
de limites nem de bandeiras, olha que vão juntos ao céu,
por um sorriso de pomba que os reúne no vôo.
Não me chames estrangeiro, pensa no teu irmão e no meu
o corpo cheio de balas beijando de morte o chão,
eles não eram estrangeiros, se conheciam de sempre
pela liberdade eterna e como pessoas livres morreram.
Não me chames estrangeiro, olha-me bem nos olhos,
muito mais além do ódio, do egoísmo e do medo,
e verás que sou um homem, não posso ser estrangeiro.
Escrito por marialimeira às 23h19
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